ARTIGO
PRIMEIRO:
A Natureza da Doutrina Social da Igreja
1. A Igreja como Mãe
e Mestra
2. A missão da Igreja
3. A mensagem social da Igreja
4. O alcance da doutrina social da Igreja
5. Evangelização e doutrina social da
Igreja
I. A IGREJA COMO
MÃE E MESTRA
1. Mãe e Mestra de todos os
povos, a Igreja Universal foi fundada por Jesus Cristo, a fim de
que todos, vindo no seu seio e no seu amor, através dos séculos,
encontrem a plenitude de vida mais elevada e penhor seguro de salvação.
A esta Igreja, coluna e fundamento da verdade (cf. 1 Tm 3, 15),
o seu Fundador santíssimo confiou uma dupla missão:
de gerar filhos, e de educar e dirigir, orientando, com solicitude
materna, a vida dos indivíduos e dos povos, cuja alta digni-
dade ela sempre desveladamente respeitou e defendeu. (Mater et Magistra,
n. 1)
2. É a Igreja, efetivamente,
que haure no Evangelho doutrinas ou de pôr termo ao conflito
ou ao menos de o suavizar, expurgando- o de todo o que ele tenha
de severo e áspero; a Igreja, que não se contenta
com esclarecer o espírito de seus ensinos, mas também
se esforça em regular, de harmonia com eles a vida e os costumes
de cada um; a Igreja, que, por uma multidão de instituições
eminente- mente benéficas, tende a melhorar a sorte das classes
pobres; a Igreja, que quer e deseja ardentemente que todas as classes
empreguem em comum as suas luzes e as suas forças para dar
à questão operária a melhor solução
possível; a Igreja, enfim, que julga que as leis e a autoridade
pública devem levar a esta solução, sem dúvida
com medida e com prudência, a sua parte do concurso. (Rerum
Novarum, n. 25)
3. O cristianismo é, de fato,
a realidade da união da terra com o céu, uma vez que
assume o homem, na sua realidade concreta de espírito e matéria,
inteligência e vontade, e o convida a elevar o pensamento,
das condições mutáveis da vida terrena, até
às alturas da vida eterna, onde gozará sem limites
da plenitude da felicidade e da paz. (Mater et Magistra, n. 2)
4. Não é, pois, de
admirar que a Igreja católica, à imitação
de Cristo e em cumprimento das suas disposições, tenha
mantido sempre bem alto, através de dois mil anos, isto é,
desde a instituição dos antigos diáconos, até
os nossos tempos, a facho da caridade, não menos com os preceitos
do que com os numerosos exemplos que vem proporcionando. Caridade,
que ao conjugar harmoniosamente os mandamentos do amor mútuo
com a prática dos mesmos, realiza de modo admirável
as exigências desta dupla doação que em si resume
a doutrina e a ação social da Igreja. (Mater et Magistra,
n. 6)
5. Assim, à luz da sagrada
doutrina do II Concílio do Vaticano, a Igreja aparece frente
a nós como sujeito social da responsabilidade pela verdade
divina. Ouçamos com profunda emoção o mesmo
Cristo, quando diz: A palavra que vós ouvis não
é minha, é do Pai, que me enviou(Jo 14, 24)
(...). Por isso se exige que a Igreja, quando professa e ensina
a Fé esteja estritamente aderente à verdade divina
(Dei Verbum, nn. 5, 10 e 21), e que a mesma Fé se traduza
em comportamentos vividos de obséquio consentâneo à
razão (cf. Dei Filius, n. 3). (Redemptor Hominis, n. 19)
6. Mais em particular, como afirma
o Concílio, o encargo de interpretar autenticamente
a palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente
ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em
nome de Jesus Cristo(Dei Verbum, n. 10). Assim a Igreja, na
sua vida e ensinamento, apresenta-se como coluna e sustentáculo
da verdade(1 Tm 3, 15), inclusive da verdade sobre o agir
moral. De fato, compete à Igreja anunciar sempre e
por toda a parte os princípios morais, mesmo de ordem social,
bem como emitir juízo acerca de quaisquer realidades humanas,
na medida em que o exijam os direitos fundamentais da pessoa humana
ou a salvação das almas(Código de Direito
Canônico, cân. 747, n. 2). Precisamente sobre as questões
que caracterizam hoje o debate moral e à volta das quais
se desenvolveram novas tendências e teorias, o Magistério,
por fidelidade a Jesus Cristo e em continuidade com a tradição
da Igreja, sente com maior urgência o dever de oferecer o
próprio discernimento e ensinamento, para ajudar o homem
no seu caminho em busca da verdade e da liberdade. (Veritatis Splendor,
n. 27)

II. A MISSÃO
DA IGREJA
7. Nascida do amor do Pai eterno
(cf. Ef 1, 2; 5-6, 13-14, 23), fundada no tempo por Cristo Redentor,
e coadunada no Espírito Santo, a Igreja tem um fim salutar
e escatológico que não pode ser atingido plenamente
senão na vida futura. Contudo, ela já está
presente aqui na terra, composta de homens membros da cidade terrestre,
chamados justamente a formarem, já na história do
gênero humano a família dos filhos de Deus, que deve
crescer sempre até a vinda do Senhor. Unida em vista dos
bens celestiais e deles enriquecida, esta família foi por
Cristo fundada e organizada neste mundo como sociedade(LG,
n. 8) é provida de meios aptos de união visível
e social(LG, n. 9). Deste modo a Igreja se manifesta ao mesmo
tempo como assembléia visível e comunidade espiritual,
e caminha juntamente com a humanidade inteira. Experimenta com o
mundo a mesma sorte terrena; é como que o fermento e a alma
da sociedade humana a ser renovada em Cristo e transformada na família
de Deus. (Gaudium et Spes, n. 40)
8. O ensino e a difusão da
doutrina social fazem parte da missão evangelizadora da Igreja.
E, tratando-se de uma doutrina destinada a orientar o comportamento
das pessoas, tem de levar cada uma delas, como conseqüência,
ao empenho pela justiçasegundo o papel, a vocação
e as circunstâncias pessoais. O exercício do ministério
da evangelização em campo social, que é um
aspecto do múnus profético da Igreja, compreende também
a denúncia dos males e das injustiças. Mas convém
esclarecer que o anúncio é sempre mais importante
do que a denúncia, e esta não pode prescindir daquele,
pois é isso que lhe dá a verdadeira solidez e a força
da motivação mais alta. (Sollicitudo Rei Socialis,
n. 41)
9. Nós professamos que o Reino
de Deus iniciado aqui na terra, na Igreja de Cristo, não
é deste mundo, cuja figura passa, e que o seu crescimento
próprio não pode confundir-se com o progresso da civilização,
da ciência ou da técnica humanas, mas consiste em conhecer
cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo,
em esperar cada vez corajosamente os bens eternos, em responder
cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez
mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas
é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constante-
mente com o bem temporal dos homens. Não cessando de lembrar
a seus filhos que eles não têm aqui na terra uma morada
permanente, anima-os também a contribuir, cada qual segundo
a sua vocação e os meios de que dispõem, para
o bem de sua cidade terrestre, a promover a justiça, a paz
e a fraternidade entre os homens, a prodigalizar-se na ajuda aos
irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes (Paulo
VI, Profissão de Fé do Povo de Deus, n. 27). (Libertatis
Nuntius, Conclusão)
10. Mas como foi confiado à
Igreja manifestar o mistério de Deus, desde Deus que é
o fim último do homem, ao mesmo tempo revela ao homem o sentido
de sua própria existência, a saber, a verdade essencial
a respeito do homem. A Igreja sabe perfeitamente que só Deus,
ao qual serve, responde às aspirações profundíssimas
do coração humano, que nunca se sacia plenamente com
os alimentos terrestres. (Gaudium et Spes, n. 41)
11. Por isso a Igreja, enriquecida
com os dons do seu Fundador e observando fielmente os Seus preceitos
de caridade, humildade e abnegação, recebeu a missão
de anunciar o Reino de Cristo e de Deus, de estabelecê-lo
em todos os povos e deste Reino constitui na terra o germe e o início.
Entrementes ela, enquanto cresce paulatinamente, anela pelo Reino
consumado e com todas as suas forças espera e suspira unir-se
ao seu Rei na glória. (Lumen Gentium, n. 5)
12. Como todos sabem, [a Igreja]
não está separada do mundo, vive nele. Por isso, os
membros da Igreja estão sujeitos à influência
do mundo, de que respiram a cultura, aceitam as leis e absorvem
os costumes. Este contato permanente, que a Igreja tem com a sociedade
temporal, impõe-lhe uma problemática contínua,
hoje dificílima. Por um lado a vida cristã, como a
Igreja defende e promove, deve com perseverança e tenacidade
preservar-se de tudo quanto pode enganá- la, profaná-la
e sufocá-la, procurando imunizar-se do contágio do
erro e do mal; por outro lado, a vida cristã deve não
só adaptar-se às formas do pensamento e da moral,
que o ambiente terreno lhe oferece e impõe, quando elas forem
compatíveis com as exigências essenciais do seu programa
religioso e moral, mas deve procurar aproximá-las de si mesma,
purificá-las, nobilitá-las, vivificá-las e
santificá-las. (Ecclesiam Suam, n. 20)
13. A Igreja oferece aos homens o
Evangelho, documento profético, capaz de corresponder às
exigências e aspirações do coração
humano: é e será sempre a Boa Nova. A
Igreja não pode deixar de proclamar que Jesus veio revelar
a face de Deus, e merecer, pela cruz e ressurreição,
a salvação para todos os homens. (Redemptoris Missio,
n. 11)
14. Tudo o que é humano nos
diz respeito. Temos, em comum com a humanidade inteira, a natureza,
isto é, a vida com todos os seus dons e problemas. Comungamos
de bom grado nesta primeira universalidade, aceitamos as profundas
exigências das suas nece- ssidades fundamentais, aplaudimos
as afirmações novas e por vezes sublimes do seu gênio.
Possuímos verdades morais vitais, que se hão de pôr
em evidência e revigorar na consciência humana; são
benéficas para todos. Em qualquer esforço que o homem
faça para se compre- ender a si mesmo e ao mundo, pode contar
com a nossa simpatia (Ecclesiam Suam, n. 54)

III. A MENSAGEM
SOCIAL DA IGREJA
15. A solicitude social da Igreja,
que tem como fim um desenvolvimento autêntico do homem e da
sociedade, o qual respeite e promova a pessoa humana em todas as
suas dimensões, manifestou- se sempre das mais diversas maneiras.
Um dos meios privilegiados de intervenção, nos últimos
tempos, tem sido o Magistério dos Romanos Pontífices
que, partindo da Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII
como de um ponto de referência, tratou com freqüência
a questão, fazendo algumas vezes coincidir as datas de publicação
dos vários documentos sociais com os aniversários
daquela primeira Encíclica. Os Sumos Pontífices não
deixaram de ilustrar, com as suas intervenções, também
aspectos novos da doutrina social da Igreja. Começando, pois,
do validíssimo subsídio de Leão XIII, enriquecido
pelas sucessivas contribuições magisteriais, constituiu-se
já um corpo doutrinal atualizado, que se articula à
medida em que a Igreja, dispondo da plenitude da Palavra revelada
por Cristo Jesus e com a assistência do Espírito Santo
(cf. Jo 14, 16.26; 16, 13-15), vai lendo os acontecimentos, enquanto
eles se desenrolam no decurso da História. Deste modo, ela
procura guiar os homens para corres- ponderem, com o auxílio
também da reflexão racional e das ciências humanas,
à sua vocação de construtores responsáveis
da sociedade terrena. (Sollicitudo Rei Socialis, n. 1)
16. No meio das perturbações
e das incertezas da hora presente, a Igreja tem uma mensagem específica
a proclamar, um apoio a dar aos homens nos seus esforços
por tomar as rédeas do seu futuro e orientá-lo. Passada
a época em que a Encíclica Rerum Novarum denunciava,
de maneira energética e categórica, o escândalo
da condição operária, da sociedade industrial
nascente, a evolução histórica fez com que
se tomasse consciência, como o reconheciam já as Encíclicas
Quadragesimo Anno e Mater et Magistra, de outras dimensões
e de outras aplicações da justiça social. O
recente Concílio Ecumênico aplicou-se, por sua vez,
em descobri-las, em particular na Constituição Pastoral
Gaudium et Spes. Nós próprios também já
continuamos orientações ali dadas, com a nossa Encíclica
Populorum Progressio: Hoje, dizíamos então,
o fato de mais saliente, de que cada um deve tomar consciência
é que a questão social se tornou mundial(PP,
n. 3). Uma renovada conscientização das exigências
da mensagem evangélica, comporta para a Igreja a obrigação
de se pôr a serviço dos homens, para ajudar a captar
todas as dimensões deste grave problema e para convencer
da urgência de uma ação solidária, nesta
viragem da história da humanidade. (Octogesima Adveniens,
n. 5)
17. A revelação
cristã leva a uma compreensão mais profunda das leis
da vida social(GS, n. 23). A Igreja recebe do Evangelho a
revelação plena da verdade do homem. Quando ela cumpre
a sua missão de anunciar o Evangelho, ensina ao homem, em
nome de Cristo, a sua dignidade própria e a sua vocação
à comunhão de pes- soas; e ensina-lhe as exigências
da justiça e da paz, de acordo com a sabedoria divina. (Catecismo
da Igreja Católica, n. 2419)
18. A doutrina social da Igreja,
que propõe um conjunto de princípios de reflexão,
critérios de discernimento e diretrizes de ação,
é dirigida em primeiro lugar aos membros da Igreja. É
essencial que o fiel, comprometido na promoção humana,
tenha domínio firme deste precioso corpo de doutrina e faça
dele parte integrante da sua missão evangelizadora (...).
Os dirigentes cristãos na Igreja e na sociedade, particularmente
os leigos com responsabilidades na vida pública, necessitam
de estar bem formados nesta doutrina, para que possam inspirar e
vivificar a sociedade civil e as suas estruturas com o fermento
do Evangelho. (Ecclesia in Asia, n. 32).
19. A formação doutrinal
dos fiéis leigos mostra-se hoje cada vez mais urgente, não
só pelo natural dinamismo de aprofundar a sua fé,
mas também pela exigência de racionalizar a esperançaque
está dentro deles, perante o mundo e os seus problemas graves
e complexos. Tornam-se, desse modo, absolutamente necessárias
uma sistemática ação de catequese, a dar-se
gradualmente, conforme a idade e as várias situações
de vida, e uma mais decidida promoção cristã
da cultura, como resposta às eternas interrogações
que atormentam o homem e a sociedade de hoje. Em particular, sobretudo
para os fiéis leigos, de várias formas empenhados
no campo social e político, é absolutamente indis-
pensável uma consciência mais exata da doutrina social
da Igreja, como repetidamente os Padres sinodais recomendaram nas
suas intervenções. (Christifideles Laici, n. 60)
20. Fiel ao ensinamento e ao exemplo
do seu divino Fundador, que dava como sinal da sua missão
o anúncio da Boa-nova aos pobres (Lc 7, 22), a Igreja nunca
descurou a promoção humana dos povos aos quais levava
a fé em Cristo. (Populorum Progressio, n. 12)
21. A Igreja compartilha com os homens
do nosso tempo este profundo e ardente desejo de vida justa sob
todos os aspectos. Não deixa de fazer objecto de reflexão
os vários aspectos da justiça exigida pela vida dos
homens e das sociedades. Bem o comprova o amplo desenvolvimento
alcançado no último século pela doutrina social
católica. Na linha deste ensino situam-se tanto a educação
e a formação das consciências humanas no espírito
da justiça, como as iniciativas que, animadas pelo mesmo
espírito,se vão desenvolvendo, especialmente no campo
do apostolado dos leigos. (Dives in Misericordia, n. 12)
22. A Igreja tem consciência
do que o Senhor quer que ela seja, surge nela uma plenitude única
e a necessidade de efusão, adverte claramente uma missão
que a transcende e um anúncio que ela deve espalhar. É
o dever da evangelização, é o mandato missionário,
é o dever do apostolado. (Ecclesiam Suam, n. 37)
23. Decerto, não existe um
único modelo de organização política
e econômica da liberdade humana, porque culturas diferentes
e experiências históricas diversas dão origem,
numa sociedade livre e responsável, a diversificadas formas
institucionais. (Discurso durante a 50» Assembléia
Geral da Organização das Nações Unidas,
1995, n. 3)
24. A doutrina social tem, além
disso, uma importante dimensão interdisciplinar. Para encarnar
melhor nos diversos contextos sociais, econômicos e políticos
em contínua mutação, essa doutrina entra em
diálogo com diversas disciplinas que se ocupam do homem,
assumindo em si os contributos que delas provêm, e ajudando-as,
por sua vez, a abrir-se numa dimensão mais ampla ao serviço
de cada pessoa, conhecida e amada na plenitude da sua vocação.
A par desta dimensão interdisciplinar, aparece depois a dimensão
prática e em certo sentido experimental desta doutrina. De
fato, ela situa-se no cruzamento da vida e da consciência
cristã com as situações do mundo e exprime-se
nos esforços que indivíduos, famílias, agentes
culturais e sociais, políticos e homens de Estado realizam
para lhe dar forma e aplicação na história.
(Centesimus Annus, n. 59)

IV. O ALCANCE
DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA
25. A Igreja não tem modelos
a propor. Os modelos reais e eficazes poderão nascer apenas
no quadro das diversas situações históricas,
graças ao esforço dos responsáveis que enfrentam
os problemas concretos em todos os seus aspectos sociais, econômicos,
políticos e culturais que se entrelaçam mutuamente
(cf. GS, n. 36; Octogesima Adveniens, nn. 2-5). A esse empenhamento,
a Igreja oferece, como orientação ideal indispensável,
a própria doutrina social que-como se disse-reconhece o valor
positivo do mercado e da empresa, mas indica ao mesmo tempo a necessidade
de que estes sejam orientados para o bem comum. (Centesimus Annus,
n. 43)
26. O ensinamento social da Igreja
abrange um corpo de doutrina que se articula à medida que
a Igreja interpreta os acontecimentos ao longo da história,
à luz do conjunto da palavra revelada por Cristo Jesus e
com a assistência do Espírito Santo (cf. SRS, n. 1).
Este ensinamento se torna mais aceitável para os homens de
boa vontade na medida em que inspira a conduta dos fiéis.
(Catecismo da Igreja Católica, n. 2422)
27. Nas aplicações
destes, podem surgir divergências mesmo entre católicos
retos e sinceros. Quando isto suceder, não faltem a consideração,
o mútuo respeito e a boa vontade em descobrir os pontos onde
existem acordo, a fim de se conseguir uma ação oportuna
e eficaz. Não nos percamos em discussões intermináveis;
e, sob o pretexto de conseguirmos o ótimo, não deixemos
de realizar o bom que é possível, e portanto, obrigatório.
(Mater et Magistra, n. 237)
28. A Igreja não propõe
uma filosofia própria, nem canoniza uma das correntes filosóficas
em detrimento de outras. A razão profunda desta reserva está
no fato de que a filosofia, mesmo quando entra em relação
com a teologia, deve proceder segundo os seus métodos e regras;
caso contrário, não haveria garantia de permanecer
orientada para a verdade, tendendo para a mesma através de
um processo racionalmente controlável. Pouca ajuda daria
uma filosofia que não agisse à luz da razão,
segundo princípios próprios e específicas metodologias.
Fundamentalmente, a raiz da autonomia de que goza a filosofia, há
que individuá-la no fato de a razão estar orientada,
por sua natureza, para a verdade e dotada em si mesma dos meios
necessários para a alcançar. Uma filosofia, ciente
deste seu estatuto constitutivo, não pode deixar
de respeitar as exigências e evidências próprias
da verdade revelada. (Fides et Ratio, n. 49)
29. A doutrina social da Igreja se
desenvolveu no século XIX, quando nasce o encontro do Evangelho
com a sociedade industrial moderna, suas novas estruturas para produção
de bens de consumo, sua nova concepção da sociedade,
do Estado e da autoridade, suas novas formas de trabalho e de propriedade.
O desenvolvimento da doutrina da Igreja em matéria econômica
e social, atesta o valor permanente do ensinamento da Igreja, ao
mesmo tempo que do sentido verdadeiro de sua Tradição
sempre viva e ativa (cf. CA, n. 3). (Catecismo da Igreja Católica,
n. 2421)
30. A doutrina social da Igreja não
é uma terceira viaentre capitalismo liberal e
coletivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa
a outras soluções menos radicalmente contrapostas:
ela constitui por si mesma uma categoria. Não é tampouco
uma ideologia, mas a formulação acurada dos resultados
de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência
do homem, na sociedade e no contexto internacional, à luz
da fé e da tradição eclesial. A sua finalidade
principal é interpretar estas realidades, examinando a sua
conformidade ou desconformidade com as linhas do ensinamento do
Evangelho sobre o homem e sobre a sua vocação terrena
e ao mesmo tempo transcendente; visa, pois, orientar o comportamento
cristão. Ela pertence, por conseguinte, não ao domínio
da ideologia, mas da teologia e especialmente da teologia moral.
(Sollicitudo Rei Socialis, n. 41)
31. Não foi, é certo,
confiada à Igreja a missão de encaminhar os homens
à conquista da felicidade transitória e caduca, mas
eterna; antes a Igreja crê não dever intrometer-se
sem motivos nos negócios terrenos(Ubi Arcano Dei Consilio,
n. 65). O que não pode é renun- ciar ao ofício
de que assuntos técnicos, para os quais lhe faltam compe-
tência e meios, mas em tudo o que se refere à moral.
Dentro deste campo, o depósito da verdade que Deus nos confiou
e o gravíssimo encargo de divulgar a lei moral, interpretá-la
e urgir o seu cum- primento oportuna e inoportunamente, sujeitam
e subordinam ao nosso juízo a ordem social e as mesmas questões
econômicas. (Quadragesimo Anno, n. 41)
32. A doutrina social hoje especialmente
visa o homem, enquanto inserido na complexa rede de relações
das sociedades modernas. As ciências humanas e a filosofia
servem de ajuda para interpretar a centralidade do homem dentro
da sociedade, e para o capacitarem a uma melhor compreensão
de si mesmo, enquanto ser social. Todavia somente a
fé lhe revela plenamente a sua verdadeira ident- idade, e
é dela precisamente que parte a doutrina social da Igreja.
(Centesimus Annus, n. 54)

V. E VANGELIZAÇÃO
E DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA
33. A nova evangelização,
da qual o mundo moderno tem urgente necessidade, e sobre a qual
várias vezes insisti, deve incluir entre as suas componentes
essenciais o anúncio da doutrina social da Igreja, tão
idônea hoje como no tempo de Leão XIII para indicar
o reto caminho de resposta aos grandes desafios da idade contem-
porânea, enquanto cresce o descrédito das ideologias.
Como então, é preciso repetir que não existe
verdadeira solução para a questão socialfora
do Evangelho e que, por outro lado, as coisas novaspodem
encontrar neste o seu espaço de verdade e a devida avaliação
moral. (Centesimus Annus, n. 5)
34. O que deve contar-aqui, como
nos demais setores da vida cristã-é a confiança
que provém da fé, ou seja, a certeza de não
sermos nós os protagonistas da missão, mas Jesus Cristo
e o Seu Espírito. Somos apenas colaboradores e, depois de
termos feito tudo o que estava ao nosso alcance, devemos dizer:
Somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos
fazer(Lc 17, 10). (Redemptoris Missio, n. 36)
35. Desejo agora propor uma releiturada
Encíclica leonina, convidando a olhar para trás,
ao próprio texto, para descobrir de novo a riqueza dos princípios
fundamentais, nela formulados, sobre a solução da
questão operária (...). Procedendo deste modo, será
confirmado não só o valor permanente do seu ensinamento,
mas manifestar-se-á também o verdadeiro sentido da
Tradição da Igreja, que, sempre viva e vivificante,
constrói sobre o fundamento posto pelos nossos pais na fé
e, designadamente, sobre o que os Apóstolos transmitiram
à Igreja(S. Ireneu, Adversus Haereses, I, 10) em nome
de Jesus Cristo, o fundamento que ninguém pode substituir(1
Cor 3, 11). (Centesimus Annus, n. 3)
36. (É) porque a apresentação
da mensagem evangélica não é para a Igreja
uma contribuição facultativa: é um dever que
lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens
possam acreditar e ser salvos. Sim, esta mensagem é necessária;
ela é única e não poderia ser substituída.
(Evangelii Nuntiandi, n. 5)
37. Somos enviados: estar ao serviço
da vida não é para nós um título de
glória, mas um dever que nasce da consciência de sermos
o povo adquirido por Deus para proclamar as suas obras maravilhosas(cf.
1 Pd 2, 9). No nosso caminho, guia-nos e anima- nos a lei do amor:
um amor, cuja fonte e modelo é o Filho de Deus feito homem
que pela sua morte deu a vida ao mundo(cf. Missal Romano,
Oração do celebrante antes da comunhão). Somos
enviados como povo. O compromisso de servir a vida incumbe sobre
todos e cada um. É uma responsabilidade tipicamente eclesial,
que exige a ação concertada e generosa de todos os
membros e estruturas da comunidade cristã. Mas a sua característica
de dever comunitário não elimina nem diminui a responsabilidade
de cada pessoa, a quem é dirigido o mandamento do Senhor
de fazer- se próximode todo o homem: Vai
e faz tu também do mesmo modo(Lc 10, 37). (Evangelium
Vitae, n. 79)
38. Todos juntos sentimos o dever
de anunciar o Evangelho da vida, de o celebrar na liturgia e na
existência inteira, de o servir com as diversas iniciativas
e estruturas de apoio e promoção. (Evangelium Vitae,
n. 79)

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